segunda-feira, abril 23, 2007

Capítulo III

Primavera de 1995.
Sucinta comemorava o seu aniversário num jantar promovido pela sua turma, na faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
Esforçada e dedicada, era uma aluna que inspirava confiança nos professores e, como sucede nestas ocasiões, desconforto entre os colegas.
A infância extrovertida marcara-lhe transversalmente a personalidade.
Era uma sociedade estudantil marcada pelo desejo de sucesso onde, por vezes, o fim pretendia esconder o meio nem sempre legítimo de algumas acções individuais.
A forma fácil como Sucinta se deslocava no meio académico era fonte de inspiração e ... divagação.
Enquanto isso, Miguel estudava. E fazia-o sozinho.
Não apreciava muito a vida académica de conjunto.
Na faculdade sentava-se nas primeiras filas. Desenvolveu amizades que guarda ainda hoje.
Daquelas que falam, pensam e agem da mesma maneira que nós. Sem preconceitos nem vontade agradar a ninguém.
Era visto como um "gajo fixe" que não "alinhava em merdas"!
Ainda hoje, Miguel não percebe o que isso queria dizer. Suspeita, porém, que se relaciona com os valores éticos que sempre teve por escopo. Inclusive quando, pela primeira vez na sua vida, se desentendeu com um seu "conhecido".
Até ao dia em que, volvidos dez anos, o "Cavalheiro", desculpando-se, o acusou de ser "recto como um fuso" ao mesmo tempo que lhe solicitava um... oportuno favor profissional!
Ironias da vida...!

segunda-feira, abril 16, 2007

Capítulo II

Verão de 1980.
Bons alunos, Miguel e Sucinta sentavam-se sempre nas primeiras filas da sala de aula.
Em fundo, o quadro negro parecia vigiar todos os seus movimentos, secundado pelo olhar atento do professor.
Nas laterais, dois crucifixos pareciam apontar para a direcção a seguir pelas "boas" almas num sinal claro de unicidade teológica promovida pela Igreja.
Nos cantos das salas, afastadas por cento e cinquenta quilómetros, o João e a Manuela aprendiam que era errado bater nos colegas.
Chegada a casa, Sucinta confidenciava a sua mãe, sua confessora de todas as ocasiões, como tinha pena daqueles meninos.
Chegado ao recreio, Miguel estendia a sua mão aos "castigados" e, num gesto de pura amizade, chamava-os até si. E brincavam.

terça-feira, abril 03, 2007

Capítulo I

Abril pós Revolução.
A sociedade portuguesa fervilhava sem, contudo, saber interpretar o conceito liberdade.
Azancha, três e quarenta da madrugada. Nasceu o "menino", como se disse. Miguel, como hoje é conhecido.
Dois anos e seis horas mais tarde, sentada na mesa do café de seus pais, Sucinta sentia-se fixada pelos tons de tijolo que um cliente trajava.
As suas pernas acompanhavam o ritmo da música habitual no rádio que, no passado verão, seu pai comprara a um caixeiro viajante.
A camisola cor-de-rosa tinha bordadas as suas iniciais com um branco que a novidade empresta à roupa.
Era uma criança que cativava pela simplicidade no trato, cuja natural beleza instigava em todos os frequentadores do espaço um instinto protector.
Gostava de falar.
Ao contrário, Miguel era uma criança muito reservada, cuja característica a educação quase militarizada acabou por potenciar. Afável no trato, a sua presença era frequentemente solicitada nos diversos círculos em que se encontrava inserido.
Haviam de fazer um percurso similar até ao momento em que, na fábrica, se conheceram. Momento que marcaria, para sempre, as suas vidas. Irreversivelmente!