segunda-feira, maio 07, 2007

Capítulo IV

15 de Setembro de 2000.
Miguel havia acabado recentemente os estudos. Ouvira falar de um lugar na "Fábrica".
Feito o necessário trabalho de pesquisa, resolveu preparar-se para o que seria o início do fim da sua carreira profissional.
Sem que, contudo, isso significasse o declínio da sua vida sob o prisma referido. Muito pelo contrário!
Feitos os exames, acabou por ser aceite juntamente com uma outra colega que a novidade e a euforia do momento não conseguiram reter.
Registou, contudo, um pormenor.
Chamado a Lisboa para celebrar o exigido acordo laboral, depois de arrumar, entusiasmado, o seu carro, Miguel experimentou um dos mais esclarecedores e, simultaneamente, aterradores momentos da sua existência. Daqueles que apenas alguns poderão, um dia, viver. Como que retirado duma fábula, mágica pelo conteúdo.
Enquanto subia a rua, Miguel reparou num vulto feminino que fazia o mesmo percurso em sentido inverso. Deslocava-se graciosamente sobre umas sandálias escuras.
O fato cinzento acompanhava as linhas do seu corpo. Quando se aproximou cruzaram o olhar. Miguel podia jurar que conhecia aquela figura há séculos. Sentiu um arrepio percorrer-lhe todo o corpo. E a alma.
- "Partidas da imaginação!", pensou, usando duma penosa racionalidade. A mesma que o salvou quando o sentimento de abandono lhe invadiu o espírito durante 13 anos de uma longa solidão. Ainda hoje a sente. Porém, no sítio para onde cuidadosamente a atirou sem que alguém o tivesse entendido. Ou entenda.
Chegado à fábrica, foi conduzido para uma sala cujas paredes de madeira, despidas de adornos, pareciam embalá-lo numa espera fria e solitária. Pensou na sua vida. Em como tinha ali chegado.
Tinha acabado de se sentar quando lhe dizem que aguardam a chegada da "Colega" para que fossem recebidos pela "Doutora".
Minutos depois, a porta entreaberta é empurrada. Do outro lado, a mesma figura que lhe motivara à instantes um turbilhão emocional. Conseguiu elevar-se acima do marasmo de sentimentos que não entendia. Manteve a postura.
"- Boa tarde!", respondeu Miguel.
"- Eu também espero uma primeira entrevista", retorquiu a "Colega", numa voz que inspirava ternura e confiança. Num tom e dicção perfeitos. Algo que Miguel muito apreciava.
"- Sou o Miguel. E a doutora?"
"- Se vamos trabalhar em conjunto, podes chamar-me Sucinta!"

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Muito interesante, Pedrinho!
Parece-me que estou a reconhecer as personagens. Força! Bs

terça-feira, 08 maio, 2007  
Anonymous Anónimo said...

mui biene, mui biene...

quinta-feira, 10 maio, 2007  

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