sexta-feira, junho 22, 2007

Capítulo VIII

Martina, uma das secretárias do director, era a protegida de Helga.


Divertida, demonstrava dificuldades na forma como encarava as funções que desempenhava. Ou que tentava. E, porque não, no resultado que alcançava.


Filipe, por seu lado, era educado e muito afável. Era dono de uma técnica aperfeiçoada mais pelo tempo do que pela dedicação à fábrica. Haveria de desiludir, mais tarde, uma amizade formada ao longo dos tempos que, actualmente, recupera com a prudência que o caso obriga.

Maria, técnica brilhante, tinha um temperamento que se encontrava no limite do admissível.

Era frequente ouvi-la falar de teorias conspirativas em que figurava como figura principal, violentamente prejudicada em ... qualquer coisa...

Pompadour primava pela diferença. Imaturo, era o protótipo do miúdo irreverente que não se importava de entrar na fábrica de rabo de cavalo acompanhado de brinco na orelha. Demasiado ousado para um sector extremamente conservador como o existente na fábrica, para uns; Extremamente apropriado para "la plage", para outros.

Da perspectiva laboral, ficaria conhecido como o técnico que, no último ano de contrato, não fez um "papel". Internamente, relacionar-se-ia com Sucinta de forma inesperada e intensa... Porém, frívola, rápida e desastrada.

Findo o dia de trabalho, regressaram no dia seguinte onde, finalmente, Sucinta e Miguel tiveram o privilégio de conhecer Salvador.

quinta-feira, junho 14, 2007

Capítulo VII

Com a mesma rapidez com que a porta se abriu, Helga deixou Miguel e Sucinta a sós diante do director.
Manuel impressionava.
Robusto, tinha um discurso bem estruturado e assertivo.
Originário de uma pequena localidade do interior, cedo se distinguiu pela inteligência e dedicação aos estudos.
Honesto e frontal, não tolerava hipocrisias nem discursos redundantes. O dono da fábrica tinha-lhe muito respeito. Do que apenas alguns conseguem alcançar pelo próprio pulso.
Terminada a reunião, foram distribuídas tarefas a ambos tendo sido aquele, efectivamente, o seu primeiro dia de trabalho.
Regressados à sala, foram surpreendidos pelos restantes elementos do departamento que, a conta gotas, lhes foram apresentados.
Primeiro o Filipe, e depois a Martina; mais tarde, a Maria e o Pompadour. Apenas no dia seguinte haviam de conhecer Salvador.

sexta-feira, junho 08, 2007

Capítulo VI

Helga impressionava pelo porte essencialmente germânico, desenvolvido entre o seu metro e setenta e cinco, e os radiantes olhos azuis.
O cabelo, enrolado em carrapito, representava a cereja em cima do bolo.
A indumentária era cuidadosamente preparada, sem repetições diárias, numa mistura bem conseguida entre o formal e o praticamente simples.
No trato, Helga mostrava-se à altura. Mulher decidida e de convicções fortes, tinha uma visão global das relações interpessoais como poucos.
Profissionalmente, uma "leveza de funcionamento" que a experiência lhe deixara ao longo dos tempos. Perceber-se-ia mais tarde que era muito próxima do director.
Miguel sentiu-se confortado com o que via. Uma lutadora, pensou.
No curto percurso que, porém, pareceu imenso, entre a sua sala e a sala do director, Miguel e Sucinta trocaram um daqueles olhares cumplices, inspiradores de confiança verdadeira.
Num percurso labiríntico, sairam do seu gabinete, viraram à esquerda, depois à direita, novamente à esquerda. Por fim, Helga deteve-se junto a uma porta à esquerda de um corredor.
Voltaram a ouvir-se os sons de metal na madeira. Do lado de dentro do gabinete, o silêncio.
Helga repetiu o toque.
- "Sim!"
O timbre da voz foi suficientemente forte para deixar ambos perturbados. Com receio, até.
Tinha chegado o momento de conhecer o director.

terça-feira, junho 05, 2007

Capítulo V

Nesse mesmo dia foram levados à presença dos Colegas de trabalho.
Iriam trabalhar na mesma sala sob o olhar atento de António que ali fora colocado para o efeito.
No que a formação e enquadramento social e profissional na Fábrica concerne, claro.
De silhueta volumosa, António distinguia-se pela incompreensão para que era empurrado por uns e, por receio, ignorado por outros. Miguel entendia-o e aceitava a sua personalidade nem sempre inteligível. Uma personalidade ensombrada pela inteligência soberba que nele fazia toda a diferença e o tornava ... incómodo. Sucinta, assim como grande parte do grupo (onde por vezes se incluía Miguel) não concordava.
Achava-o arrogante e sinistro. Maluco, também. Havia todos, mais tarde, de mudar a opinião.
Na sala, duas cadeiras aguardavam a presença dos dois novos reforços. No armário, um amontoado de papéis, também!
Dois computadores velhissímos. Quatro quadros nas paredes invocando a grande feira nacional de 1998.
Conversaram durante minutos.
Enquanto ouviam os conselhos técnicos e práticos de António, batem à porta.
- Sim, Dona Helga...!
António reconhecera o ligeiro toque na porta misturado com o som dos anéis na madeira.
Aberta a porta, os dois novos pupilos saltaram das cadeiras como que impulsionados por molas.
- " O Senhor Director gostava de se reunir convosco", disse Helga em tom firme e com a voz colocada.