quinta-feira, outubro 04, 2007

Capítulo XII

Janeiro de 2001.
O dia de trabalho havia sido particularmente complicado no departamento gerido por Cambaba, não apenas pelo avolumar de serviço pendente, como também pelo ataque cerrado que um dos vice-presidentes, persecutória e reiteradamente, movia a Cambaba sem que, hoje, se vislumbrem os verdadeiros motivos.
Perante este cenário de tensão constante entre colegas, Sucinta parecia perdida num distanciamento invulgar, que a boa avaliação de estados emocionais por parte de Miguel não deixou escapar. Antes disfarçar.
Nesse final de tarde, Sucinta enviou gentil convite a Miguel para lanchar.
Chovia. O frio retirara pessoas da rua que, apressadamente, se entocaram em casa.
O café estava vazio de clientes, e os funcionários ocupavam o tempo livre com limpezas.
As paredes, forradas a azulejo até meio, eram de um azul carregado com motivos campestres, recordando a Miguel a sua aldeia donde nunca saiu de verdade.
Sucinta parecia preocupada. À entrada, procurou a mesa mais reservada daquele espaço: no prolongamento da parede do lado esquerdo da porta, depois duma máquina de tabaco que proporcionava uma ângulo morto ao campo visual.
Sentaram-se. Miguel reparou nos olhos preenchidos de lágrimas prestes a romper o rosto de Sucinta. Miguel não percebia. Por isso perguntou.
E Sucinta explicou o que, apenas para alguns, foi evidente - o relacionamento com Pompadour havia terminado antes de começar, apesar do empenho de Sucinta.
Miguel pensou no que diria Luis, namorado de Sucinta desde 1992, se ali estivesse. Sobretudo numa frase que Miguel reviu numa folha de choupo que se deixava arrastar na enxurrada de água e lama que percorriam a avenida: " - Estava disposta a deixar tudo por ele!"