Capítulo III
Primavera de 1995.
Sucinta comemorava o seu aniversário num jantar promovido pela sua turma, na faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
Esforçada e dedicada, era uma aluna que inspirava confiança nos professores e, como sucede nestas ocasiões, desconforto entre os colegas.
A infância extrovertida marcara-lhe transversalmente a personalidade.
Era uma sociedade estudantil marcada pelo desejo de sucesso onde, por vezes, o fim pretendia esconder o meio nem sempre legítimo de algumas acções individuais.
A forma fácil como Sucinta se deslocava no meio académico era fonte de inspiração e ... divagação.
Enquanto isso, Miguel estudava. E fazia-o sozinho.
Não apreciava muito a vida académica de conjunto.
Na faculdade sentava-se nas primeiras filas. Desenvolveu amizades que guarda ainda hoje.
Daquelas que falam, pensam e agem da mesma maneira que nós. Sem preconceitos nem vontade agradar a ninguém.
Era visto como um "gajo fixe" que não "alinhava em merdas"!
Ainda hoje, Miguel não percebe o que isso queria dizer. Suspeita, porém, que se relaciona com os valores éticos que sempre teve por escopo. Inclusive quando, pela primeira vez na sua vida, se desentendeu com um seu "conhecido".
Até ao dia em que, volvidos dez anos, o "Cavalheiro", desculpando-se, o acusou de ser "recto como um fuso" ao mesmo tempo que lhe solicitava um... oportuno favor profissional!
Ironias da vida...!
