quinta-feira, maio 29, 2008

Capítulo XXI - Um final

Cambaba continua hoje a sua vida pessoal e profissional entre o desprendimento e a genialidade das suas condutas.
Emocionalmente, na indefinição entre o correcto e o seguro. Infelicidades à parte.
Profissionalmente, entre a certeza da acção e o estímulo da omissão.
Filipe, seguiu o caminho donde nunca se desviou. Entre o recato do lar e a agitação de uma vida ao serviço dos clientes, mantém a serenidade com que sempre se apresentou. É verdadeiramente feliz.
Quanto a Manuel guarda uma postura imberbe que lhe tem trazido mais dissabores que satisfação. Ensombrado pelos permanentes préstimos maternos não parece satisfeito.
António, o génio por excelência, continua fiel a princípios que o afastam da normal e aparente normalidade comportamental. Crê-se que seja, sobretudo, uma pessoa realizada.
Cristina, uma mulher de coragem. Fiel a princípios de independência de género, apresenta níveis de concertação emocional e comportamental acima da média. É feliz de uma forma muito especial.
Salvador, continua a sua ascensão profissional, num escrupuloso respeito pelos valores que também eram os de Miguel e que, a espaços, faz menção de recordar.
Quanto a Sucinta, na dialética entre o que sente e o que aparenta, continua a desconhecer-se a sua verdadeira essência e real identidade.

sexta-feira, maio 16, 2008

Capítulo XX

Entre retrocessos, confirmações e decisões.
Entre beijos de despedida e o distanciamento da verdade, Sucinta comunicou a Miguel aquilo que ele há muito temia ouvir.
Fruto do amor com o seu marido, havia já recebido a confirmação laboratorial da sua gravidez.
Numa confusão de sentimentos, foram trocados votos de felicidades.
Miguel nunca permitiria que a sua reacção afectasse, de algum modo, o decurso da gravidez de Sucinta.
Seguro do que por ela sentia, resolveu, com dor, afastar-se até que, no dia 5 de Julho, endereçou sinceros parabéns à família pelo nascimento de Beatriz.
Em resposta, recebeu de Sucinta um agradecimento pela ausência proporcionada, envenenado com a afirmação que Miguel nunca pensou ouvir:
" - Entre o bem que me proporcionou o teu afastamento, e a tristeza de te não ver, custou-me mais a tua ausência...!!"
Do alto da falésia, Miguel conseguia ver a Baía de Cascais.
O céu estava limpo e aquele mar espelhava, sem ondas, o azul do horizonte.
Militar de profissão, Miguel orgulhava-se de falar do seu pai evitando, não raras vezes, que os olhos se enchessem de lágrimas. "Os Homens apenas limpam as lágrimas", ouvia dizer.
Lembrou-se dele, naquele momento e do amor que por ele nutria.
O esforço que fizera para sobreviver no passado, fruto de uma vida conturbada e, no fundo, sozinha, deixara-o agora sem forças para pensar o futuro.
" - Que futuro? Haverá futuro possivel, se volvidas três décadas para encontrar o Amor o encontrou finalmente fora de alcance? Lutar?"
Entre a dor de perder Sucinta e a conformação de voltar à vida quotidiana Miguel escolheu o mar.
De olhos bem fechados e com o vento a assobiar-lhe os ouvidos à medida que ganhava velocidade e se aproximava do solo, Miguel sentiu-se livre.
Enquanto caía, ouviu Cambaba chamar-lhe corajoso.
Pela última vez.

Capitulo XIX

Corria o ano de 2006.
Miguel havia sido informado da intenção da fábrica em prescindir dos seus serviços por motivos orçamentais, o que não foi verdadeiramente negativo para a sua vida. Muito pelo contrário.
Isto porque, a muito custo, Miguel era dos que nunca precisara de patrocínios parentais, politico-partidários ou outros para se afirmar. Sequer como Homem.
Como, de resto, tudo o que fizera na sua (já) longa vida.
O relacionamento com Sucinta terminara com as duvidas que normalmente surgem nestas ocasiões, e que se situam entre o risco do desconhecido e a certeza do vivido.
Sucinta escolheu manter o "status quo". Custou, mas Miguel limitou-se a aceitar.